O púlpito dos grandes fóruns corporativos exala um perfume caro. Diante de uma plateia de jovens obcecados pela alta performance, o bilionário de terno sob medida, sem gravata — para parecer moderno e acessível —, dita as regras do universo. Com a voz pausada de quem acredita ser o dono da verdade, ele cospe palavras de ordem: meritocracia, eficiência, resiliência, foco no resultado. Na tela gigante atrás dele, gráficos apontam para o infinito. Ele se apresenta como o ápice da evolução humana: o homem que venceu pelo trabalho duro e honesto. A plateia aplaude, hipnotizada pela ilusão do herói que trabalha pelo “bem comum”.
Corta para os bastidores. Bem longe dos holofotes e do verniz moralista, a realidade opera em outra frequência. A engenharia do sucesso desses “titãs do capitalismo” não foi forjada no suor da eficiência, mas na frieza de uma mesa de operações onde a física se transforma em alquimia.
A fraude de mais de R$ 50 bilhões das Lojas Americanas não nasceu de um erro de cálculo; foi uma obra de arte do cinismo corporativo. O mecanismo do risco sacado era simples: a empresa comprava mercadorias, o banco pagava o fornecedor à vista e a varejista passava a dever ao banco, com juros. No mundo real, isso se chama empréstimo bancário. Mas no Olimpo dos bilionários, registrar isso como dívida estragaria a narrativa do “gestor genial”.
Então, com a assinatura de diretores que cobravam metas desumanas de seus subordinados, a dívida bilionária continuava registrada cinicamente na conta de “Fornecedores”. Os juros feudais cobrados pelos bancos eram varridos para debaixo do tapete através de contratos fictícios de Verba de Propaganda Cooperada (VPC). O custo do dinheiro virava, magicamente, um ativo de marketing. O lucro subia, imponente e falso, sustentando bônus milionários para a diretoria e dividendos blindados para os acionistas majoritários. Uma imoralidade lucrativa atrelada a mecanismos corruptos, enquanto publicamente se exigia “sangue nos olhos” dos funcionários da ponta.
O mais fascinante — e asqueroso — desse teatro é a rede de proteção que o sustenta. Uma fraude dessa magnitude não sobrevive por uma década sem o silêncio obsequioso e lucrativo do ecossistema. Empresas de auditoria de credibilidade mundial, as guardiãs da moralidade do mercado, carimbavam os balanços sem um piscar de olhos, enquanto jovens auditores, engolidos pelo medo de perder seus empregos ou de serem rotulados como “causadores de problemas”, preferiam o silêncio à denúncia.
Nas mesas de crédito de gigantes como Itaú e Santander, o volume real da exposição era conhecido. Os juros eram cobrados com base no risco real, mas na hora de publicar o balanço para o investidor comum, todos aceitavam a ficção de que aqueles bilhões eram apenas “caixas de chocolate a pagar”. É o capitalismo de compadrio em seu estado mais puro: um pacto de cavalheiros onde os lucros são rigorosamente privados e os riscos são maquiados até que a bomba estoure.
Quando o castelo de cartas de mais de R$ 50 bilhões finalmente ruiu, os heróis da pátria financeira rapidamente vestiram o manto das vítimas. “Fomos enganados”, disseram os mesmos homens que passaram a vida vendendo livros sobre como controlar cada centavo de uma organização. O moralismo de palco evaporou, revelando o que sempre esteve ali: ilusionistas de terno que socializam o prejuízo com pequenos fornecedores falidos, acionistas minoritários traídos e trabalhadores demitidos.
E agora? A história brasileira já escreveu o final deste roteiro dezenas de vezes. A lei, implacável com os vulneráveis que ousam deslizar na base da pirâmide, costuma ser cirúrgica e lenta quando sobe as escadarias do poder. Os pequenos pagam a conta; os grandes contratam bancas de advocacia multimilionárias para garantir que, mesmo após comandar o maior golpe da história empresarial do país, o topo do Olimpo permaneça intacto, confortável e, acima de tudo, impune.



