O Brasil de 2026 assiste a um fenômeno de física política inédito: o vácuo de coragem. O placar de 8 a 2 no STF, que enterrou a CPMI do INSS e blindou o rastro de crimes financeiros, não é apenas uma demonstração de força da Suprema Corte. É, acima de tudo, o atestado de óbito da espinha dorsal do Congresso Nacional.
Se antes tínhamos a inércia polida de Rodrigo Pacheco, agora vemos a “vassalagem estratégica” de Davi Alcolumbre. O comando do Senado mudou de mãos, mas o dono da chave continua sendo o mesmo tribunal do outro lado da praça. Alcolumbre, o mestre do regimentalismo de conveniência, prefere o silêncio dos bastidores ao peso da responsabilidade histórica. É a covardia calculada: enquanto o STF avança sobre as prerrogativas do Legislativo, o Presidente do Senado se agacha, garantindo que o “sistema” permaneça intacto, desde que seus interesses não sejam tocados.
O jogo político brasileiro hoje não tem mais alambrado, bandeirinhas ou juiz imparcial. O STF virou o dono da bola, o dono do campo e quem dita o placar final antes mesmo do apito inicial. E o que faz o Legislativo? Fica com as calças nas mãos, mendigando uma migalha de autonomia que ele próprio entregou em troca de blindagens mútuas e acordos de gaveta.
Passou da hora de entender que curtidas em redes sociais não derrubam tiranos, e discursos inflamados para a “bolha” são apenas fumaça para distrair o eleitorado. A indignação digital de deputados e senadores tornou-se um acessório de moda. O Senado possui as ferramentas constitucionais para frear os excessos da Praça dos Três Poderes, mas Alcolumbre e seus pares preferem a paralisia cúmplice. Onde está o equilíbrio quando um poder decide quem o outro pode investigar?
Quando o STF avança sobre uma CPMI para esconder mensagens que citam esposas de ministros e conexões financeiras escusas, ele rasga a ética de quem deveria ser o “Guardião da Constituição”. Mas quando o Presidente do Senado aceita o rasgo sem um pio, ele se torna o alfaiate da própria humilhação nacional.
Os “Intocáveis” de Brasília só se julgam Deuses porque encontraram no comando do Congresso um bando de fiéis dispostos a carregar o andor. O país não precisa de mais passeatas dominicais nem de notas de repúdio redigidas por assessores. O Brasil precisa de atitudes contundentes: o uso das prerrogativas de controle e a coragem de dizer que ninguém, nem mesmo quem veste seda preta e frequenta os melhores banquetes, está acima da lei.
A CPMI do INSS foi enterrada ontem. No mesmo caixão, foram jogadas a soberania do voto popular e a dignidade de um Senado que, de tanto se curvar para o Judiciário, esqueceu como é que se fica de pé. Se a política virou um jogo sem regras, o mínimo que se espera de quem representa o povo é que pare de agir como garçom de luxo no banquete dos tiranos.



