Quando pensamos em Páscoa hoje, a imagem que vem à mente é quase automática: mesas com bacalhau e prateleiras cheias de ovos de chocolate. Mas, ao voltarmos às origens bíblicas da celebração, percebemos que esses elementos não faziam parte da tradição. Na Páscoa do Velho e do Novo
Testamento, há um protagonista silencioso, porém profundamente simbólico: o vinho.
Na Páscoa judaica, conhecida como Pessach, a celebração relembra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. Trata-se de um ritual carregado de significado, com alimentos específicos como o cordeiro, os pães ázimos e as ervas amargas. Entre esses elementos, o vinho ocupa um lugar de destaque: são consumidas quatro taças ao longo da celebração, cada uma representando uma promessa de libertação feita por Deus. O vinho, nesse contexto, não é apenas uma bebida — é símbolo de alegria, redenção e aliança.
Avançando para o Novo Testamento, encontramos um momento ainda mais marcante: a Última Ceia de Jesus com seus discípulos. Celebrando justamente a Páscoa judaica, Jesus ressignifica o vinho ao dizer: “Este é o meu sangue, o sangue da nova aliança”. A partir daí, o vinho deixa de ser apenas símbolo de libertação histórica e passa a representar o sacrifício e a redenção espiritual. Surge, então, a base da Eucaristia, um dos pilares da fé cristã.
Perceba como o vinho atravessa toda a narrativa pascal — do Egito à cruz — sempre associado à libertação, à aliança e à vida. Diferente do chocolate, que é uma tradição moderna, e do bacalhau, incorporado por questões culturais e geográficas, o vinho está presente na essência da celebração.
Resgatar esse olhar não é abandonar as tradições atuais, mas compreender sua origem e profundidade. É trazer consciência para a mesa e significado para o momento. Afinal, mais do que uma refeição, a Páscoa é um convite à reflexão, à renovação e à conexão com aquilo que realmente importa.
Neste domingo, entre o chocolate e o bacalhau, talvez valha a pena lembrar: o verdadeiro protagonista da Páscoa sempre esteve na taça.


